Salve nobres,
Tradicionalmente, a História
Ocidental está dividida em quatro grandes Eras ou Idades: a Antiguidade, a
Idade Média, a Idade Moderna e a Idade ou Era Contemporânea. A definição dos
marcos de transição de uma Era para a seguinte é sempre, em alguma medida, arbitrária.
Dependendo fundamentalmente da ótica do historiador. A transição da Antiguidade
para a Idade Média, por exemplo, é tradicionalmente assinalada pela queda do
Império Romano do Ocidente, em 476 d.C. Historiadores especialistas em história
romana, porém, discordam dessa datação. O mesmo ocorre com relação à definição
dos marcos da transição da Idade Média para a Idade Moderna.

Do
ponto de vista da História Política e Econômica, o início da Idade Moderna é
tradicionalmente demarcado pela queda Constantinopla na mão dos turcos otomanos,
no século XV (1453). Marcando o fim do Império Romano do Oriente. Outro marco
de início da Idade Moderna do ponto de vista político e econômico são as Grandes
Navegações e a montagem dos impérios ultramarinos pelas potências ibéricas
(Portugal e Espanha), também no século XV. Marco que está diretamente ligado ao
anterior uma vez que Constantinopla servia como uma ponte para as rotas
comerciais que ligavam a Europa e a Ásia por terra. E também era o principal
porto nas rotas que iam e vinham entre o Mar Negro e o Mar Mediterrâneo. Dessa
forma, sob o domínio muçulmano as rotas comerciais terrestres e marítimas entre
Europa e Ásia foram fechadas para os mercadores cristãos. E o preço dos
produtos vindos das especiarias vindas do Sudeste Asiática atingiram preços
astronômicos. A tomada de Ceuta, no Norte da África, em 1415, pelos portugueses
foi o pontapé inicial na abertura de uma nova rota comercial para o Oriente. Ainda
do ponto de vista político e econômico, uma perspectiva que foi muito popular
em meados do século XX interpretava a Idade Moderna como uma fase de transição do
feudalismo para o capitalismo. Mas essa é uma interpretação que ignora aquilo
que a formação política, econômica e social da Idade Moderna tem de particular
(o Mercantilismo e a formação dos Estados Nacionais), caracterizando-a a partir
daquilo que veio antes (o Feudalismo Medieval) ou do que veio depois (o
Capitalismo Contemporâneo).
Ainda
do ponto de vista político e econômico, uma perspectiva que foi muito popular
em meados do século XX interpretava a Idade Moderna como uma fase de transição do
feudalismo para o capitalismo. Mas essa é uma interpretação que ignora aquilo
que a formação política, econômica e social da Idade Moderna tem de particular
(o Mercantilismo e a formação dos Estados Nacionais), caracterizando-a a partir
daquilo que veio antes (o Feudalismo Medieval) ou do que veio depois (o
Capitalismo Contemporâneo). Estudos mais recentes vêm mostrando
como essa transição é gradual e tem seu início bem mais cedo. Ninguém vai
deitar “medieval” numa noite e acorda “moderno” na manhã seguinte. A História
é, geralmente, feita de rupturas mas também de permanências.
Do ponto de vista cultural e intelectual,
historiadores apontam o advento do Renascimento em meados do século XIV, com a
sua revalorização da Antiguidade Clássica e a consolidação do Humanismo, como
marco fundamental da transição entre Idade Média e Idade Moderna. Ou ainda, a
fundação e multiplicação das universidades europeias a partir do século XII.
Recuando em aproximadamente 300 anos o início dessa transição.
E nós já chamamos a atenção para a
importância da Peste Negra (1348) na história da cerveja, com a
profissionalização do mercado de cerveja e a marginalização do papel das
mulheres na fabricação de cerveja.

Outro marco sempre lembrado pelos
historiadores é a Reforma Protestante. Seu ponto de partido teriam sido os sermões
do monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546) contra a venda das
indulgências, ocorridos em 1516 e 1517. Em tese, na doutrina católica, a
Indulgência era a possibilidade de remissão total ou parcial dos pecados por
meio de boas ações. A Igreja Católica, desde o final da Idade Média, utilizava
o comércio de indulgências como forma de arrecadar fundos. Em 31 de outubro de
1517, Lutero afixou 95 teses a respeito do valor e da eficácia das indulgências
sobre a porta da igreja de Wittemberg (em 1517). Em que condenava a “avareza e
o paganismo” na Igreja e pediam um debate teológico sobre o significado das
indulgências. A Reforma Protestante é considerada pelos historiadores como um
dos marcos de passagem para a Idade Moderna devido aos seus desdobramentos. Principalmente
o rompimento da unidade de Cristandade, que caracterizou a Idade Média.

Segundo Giovanni Messineo, no seu texto
La Birra,
protagonista nella storia – capitolo 4, publicado no site italiano
Giornale
della Birra (
https://www.giornaledellabirra.it/storia-di-birra/la-birra-protagonista-nella-storia-capitolo-4/),
além do debate a respeito das indulgências, o debate entre Reforma e
Contra-Reforma se inflamou também em torno a outro tópico muito concreto: o
emprego ou não do lúpulo na cerveja. Wittemberg, cidade onde Lutero concluiu
seus estudos de teologia e se tornou professor à Universidade local, era a
capital da cerveja na região da Saxônia, com cerca de 150 cervejarias no início
do século XVI. Para os luteranos, o uso do lúpulo era um ato de rebelião contra
a igreja católica, que à época detinha o monopólio sobre o
gruit. O
gruit
era taxado e utilizado pela igreja como fonte de renda. Os primeiros éditos
conhecidos que concederam aos mosteiros o monopólio do uso do
gruit (os
Gruitrechts)
datam do século IX. Mosteiros, bispos e outros titulares dos direitos dessa
mistura foram autorizados a conceder o usufruto também a outros produtores,
mediante o pagamento de uma taxa. A compra e venda dos direitos do
gruit
efetivamente se transformou em uma espécie de imposto indireto sobre a cerveja,
gerando uma renda significativa para a Igreja. Dessa forma, a Igreja Católica
tinha o controle sobre a mistura de ervas que, durante 700 anos, constituiu um
dos ingredientes amargos essenciais para se produzir cerveja “de acordo com a
lei”. Por outro lado, não havia impostos a pagar ao Papa pelo lúpulo, nem mesmo
em regiões controladas por católicos. Assim, junto com a publicação das teses
de Lutero, a transição do
gruit para o lúpulo também se tornou uma opção
político-religiosa.
O uso do lúpulo era conhecido desde o século VIII. Em 768, Pepino, O Breve (Rei dos Francos entre 751-768), concede plantações de lúpulo à abadia beneditina de Saint-Denis, em Paris. (http://www.cervejasdomundo.com/EraMedieval.htm). Mas foi principalmente após a publicação do Livro das sutilezas
das várias naturezas da criação (ou Livro das propriedades das várias criaturas
da natureza, dependendo da tradução), escrito entre 1151 e 1158 pela freira
beneditina Hildegard Von Bingen (1098-1179), que se popularizou a utilização do
lúpulo: “O lúpulo é quente e seco, contém um pouco umidade. […] O seu
sabor amargo […], quando adicionado às bebidas, evita o apodrecimento desta e
dá-lhes uma vida útil mais longa”.
Já no século XIII, o lúpulo era o
principal aromatizante / conservante utilizado na cerveja na Polônia, Rússia e
países bálticos, desafiando gradualmente a supremacia do gruit também na
Alemanha e na Holanda. A conclusão da transição para o lúpulo, porém, demorou
séculos porque por um lado havia uma tendência a querer preservar os antigos
costumes e, por outro, havia o “gosto amargo” do lúpulo. A cerveja temperada
com gruit era muito mais doce do que aquela lupulada. Na Holanda, o
lúpulo venceu o gruit ainda no século XIV e durante o século XV a Igreja
parou de cobrar o imposto sobre o gruit.
Reinheitsgebot (1516)
Na Alemanha, ou melhor, no Sacro Império Romano Germânico
(962-1806), uma vez que a Alemanha ainda não existia como um Estado
Nacional unificado, a transição ocorreu mais tarde, entre os séculos XV
e XVI. Mas, nas regiões ocidentais ao longo do Reno o gruit permaneceu
na moda por mais tempo. Em Colônia, por exemplo, o lúpulo só ultrapassou a
popularidade do gruit no início do século XVI. E é justamente no começo
do século XVI, mas no Ducado da Baviera, no Sul do Sacro Império, que acontece
um dos fatos mais relevantes e mundialmente conhecidos da história da cerveja e
que se relaciona diretamente com essa generalização do uso do lúpulo. Em 1516, o Duque Guilherme IV (1493-1550) promulgou a Lei da
Pureza da Cerveja ou Reinheitsgebot. A lei fixava preços para a
comercialização da cerveja e determinava que, a partir daquele momento, os
únicos ingredientes que deveriam ser utilizados para fabricação da cerveja
devem ser lúpulo, malte de cevada e água (a ação da levedura na fermentação
alcóolica só vai ser descoberta pela ciência em 1835). O texto integral é o
seguinte:
Proclamamos com
este decreto, por Autoridade de nossa Província, que no Ducado da Baviera,
tanto no país como nas cidades e nos mercados, as seguintes regras se aplicam à
venda da cerveja:
Do dia de São
Miguel (29 de Setembro) ao dia de São Jorge (23 de abril), o preço para um mass
[antiga unidade de medida austro-bávara que equivale a 1,069l] ou um kopf
[recipiente em forma de tigela, utilizado para líquidos], não pode exceder o
valor do pfennig de Munique.
Do dia de São
Jorge (23 de Abril) ao dia de São Miguel (29 de setembro), o mass não
será vendido por mais de dois pfennig do mesmo valor, e o kopf
por não mais de três Heller (Heller geralmente é meio pfennig).
Se isto não for
cumprido, a punição indicada abaixo será administrada.
Se qualquer cervejeiro
fermentar ou tiver outra cerveja, que não a cerveja do verão, não deve vendê-la
por mais de um pfennig por mass.
Além disso, nós
desejamos enfatizar que no futuro em todas as cidades, nos mercados e no país,
os únicos ingredientes usados para fabricação da cerveja devem ser cevada,
lúpulo e água. Qualquer um que negligenciar, desrespeitar ou transgredir estas
determinações, será punido pelas autoridades da corte que confiscarão tais
barris de cerveja, sem falta.
Se, entretanto,
um comerciante no campo, na cidade ou nos mercados comprar dois ou três barris
da cerveja (que contém 60 mass) para revendê-los ao camponês comum,
apenas para este será permitido acrescentar mais um Heller por kopf,
do que o mencionado acima. Além disso, caso aconteça escassez e subsequente
aumento do preço da cevada (considerando também que os tempos da colheita
diferem, devido à localização das plantações), Nós, o Ducado da Baviera,
teremos o direito de fazer apreensões para o bem de todos os interessados.
É importante deixar claro que, apesar de ser comumente
conhecida como Lei de Pureza da Cerveja Alemã ou Lei Alemã de Pureza
da Cerveja, a princípio essa lei se aplicava apenas ao Ducado da Baviera. Apenas em 1906 ela se estendeu a toda a Alemanha, então já unificada. Na década de 1980, por pressão da União Europeia, ela deixou de ser aplicada sobre cervejas voltadas para a exportação. Apesar disso, ela teve uma forte influência na criação da escola cervejeira alemã. E o respeito pelas suas determinações com relação ao uso de apenas três ingredientes é ainda hoje utilizado como marketing por cervejarias de dentro e de fora da Alemanha.
Várias motivações parecem ter concorrido para a promulgação
da lei. A versão mais difundida se refere a uma certa escassez da produção de
trigo na região. Que, a partir de então, ficaria reservado para a produção de
pão. A produção e consumo das cervejas de trigo (tradicional na região)
ficaria, a partir de então, restrita à nobreza. Texto do site português
Cervejas do Mundo sugere que também pode ter havido alguma pressão das guildas
de cervejeiros bávaros, tentando precaver seus interesses. Segundo o site, a
primeira associação de produtores de cerveja (guild), a Brauerei Beck,
havia sido criada em 1498 (http://www.cervejasdomundo.com/EraMedieval.htm). Mas
Interesses políticos também parecem ter influenciado no ato do Duque. Na época
da promulgação da lei, o monopólio da produção das cervejas de trigo era
privilégio da casa nobre de Degenberg. Ao proibir o uso do trigo, o duque
Guilherme IV, que pertencia à casa de Wittelsbach (1323-1918), deu um golpe
fatal na saúde financeira dos rivais. Em 1602, quando Sigismund Degenberg
morreu sem deixar herdeiros, as propriedades da família foram passadas ao clã
reinante e - advinhem! - as weissbiers voltaram a ser legalizadas, pelo duque
Maximilian I (1597-1623), bisneto de Guilherme IV. A produção de cervejas de trigo continuou a ser um direito exclusivo da casa de Wittelbasch. Outros nobres e monastérios só poderiam produzi-las com licença concedida pelos duques. Até 1872, quando o Duque Ludwig II (1864-1886) concedeu não apenas a permissão para produção, mas também o aluguel da Weisses Brauhaus, o estabelecimento estatal dedicado à fabricação desse tipo de cervejas, em Munique, a um cervejeiro chamado Georg Schnieder. Mas esse é um assunto para outro momento uma vez que está fora do recorte cronológico enfocado por esse texto.
O crescimento das exportações fez com que muitas cidades
alemãs ficassem famosas. Entre as quais Bremen e Hamburgo. Ambas no Norte da
atual Alemanha. A primeira era um importante entreposto na exportação de
cerveja para a Holanda, Inglaterra e Escandinávia. Enquanto a
segunda era o principal produtor da Liga Hanseática, sendo que por volta de 1500 existiam aí cerca de 600 produtoras independentes. A Liga Hanseática foi uma aliança de aproximadamente 160 cidades mercantis que estabeleceu e manteve um monopólio comercial sobre quase todo norte da Europa e Báltico entre os séculos XII e XVII. Tendo como centro a cidade de Lubeck, a rede comercial da Hansa abrangia o eixo Novgorod-Reval-Lubeck-Hamburgo-Bruges-Londres, e estava ligada às esferas comerciais de Veneza e Gênova, no Sul da Europa. Exportavam peixe seco, trigo, madeira, ferro, cobre, sal, lã e peles, trazendo tecidos, vinho, sal e especiarias. Segundo texto do site português Cervejas do Mundo, por meio dessa extensa rede comercial a Liga Hanseática chegava a exportar cerveja para locais tão longínquos como a Índia. (Fórum Cerveja do Mundo: http://www.cervejasdomundo.com/EraMedieval.htm). A Hansa entre em declínio justamente com a abertura de novas rotas comerciais entre o Oriente e o Ocidente propiciada
pelas navegações de Portugal e Espanha, nos séculos XV e XVI.

Dessa forma,
talvez seja possível afirmar que, pelo menos no que diz respeito à história da
cerveja, a Idade Moderna tem seu mais importante marco de transição na Alemanha
entre os séculos XV e XVI. Onde o uso do lúpulo começa a superar o do gruit seja sob o impacto da Reforma Protestante, seja sob o impacto da Reinheitsgebot.