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Análise do documentário "Como a cerveja Salvou o Mundo"

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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

História da cerveja no Brasil - parte 2 - D. João Cervejeiro

Salve nobres!

Como ficou dito no fim da primeira parte, com a expulsão dos holandeses do Nordeste, em 1754, também termina a primeira experiência de produção de cerveja por aqui. A importação de vinho português e o alvará de proibição de manufaturas decretado por D. Maria I também serviriam como obstáculos tanto para a produção quanto para o consumo de cerveja por essas bandas. Por isso, a cerveja só teria voltado a desembarcar em portos brasileiros depois da transferência da Família Real Portuguesa para o Rio de Janeiro.


Não é o caso de entrar nos detalhes desse acontecimento político, já amplamente conhecido. Vale ressaltar apenas duas medidas tomadas por D. João logo que chegou ao Rio de Janeiro e que colaboraram para a volta da cerveja à América portuguesa: o Decreto de abertura dos portos às nações amigas, de 28 de janeiro de 1808 e a revogação do alvará de proibição das manufaturas, de 1 de abril do mesmo ano. Com essas medidas, o mercado do Rio de Janeiro foi invadido por produtos da única nação europeia que, naquele momento, poderia comerciar com a monarquia portuguesa: a Grã-Bretanha que era já, desde o século XVII, o seu principal aliado político e parceiro comercial.

Uma afirmação muito reproduzida seria a de que o próprio Príncipe Regente português era um “apreciador inveterado de cerveja”. A afirmação é de Carlos Alberto Tavares Coutinho no seu famoso blog Cerveja marca barbante ou a história da cerveja no Brasil: “Consta que o rei, apreciador inveterado de cerveja, não podia ficar sem consumir a bebida”; Alexandre Hill Maestrini praticamente parafraseia Coutinho: “Consta que o Rei Dom João era um apreciador inveterado de cerveja e não podia ficar sem consumir sua bebida” (MAESTRINI, 2015, p. 10); e Maurício Beltramelli reconta o conto aumentando um ponto: “Consta que o rei português D. João VI era um apreciador da bebida e teria trazido vários tonéis de brejas em suas naus” (BELTRAMELLI, 2014, p. 187). Porém, o primeiro autor não fornece a fonte de onde tira a informação e os outros dois parecem se basear no primeiro. Mas será que a cerveja volta ao Brasil mesmo devido ao gosto pessoal do monarca? Para que não restasse qualquer sem sombra de dúvidas a esse respeito seria necessário consultar as listas de mantimentos da despensa dos palácios reais (ou Ucharia Real, nos termos da época) em Portugal ou no Brasil. Porém, infelizmente, não foi consegui encontrar esses documentos, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Por outro lado, outros fatos nos levam a acreditar que talvez D. João fosse um maior apreciador de vinho do que de cerveja.

Como explica Tom Standage, desde a dominação romana da Europa, de parte do Oriente Médio e do Norte da África, essa bebida ficou associada à nobreza europeia. Em qualquer lugar por onde o governo de Roma se estendesse, as pessoas adotavam o hábito de beber vinho, assim como outros costumes romanos. Principalmente as elites locais, geralmente aliadas dos dominadores romanos, que adotavam aqueles hábitos como um símbolo de distinção social. Na Península Itálica, onde o consumo do vinho era generalizado pela sociedade, os mais ricos bebiam os melhores, enquanto os cidadãos mais pobres bebiam as safras de qualidade inferior. No Norte da Europa, área produtora de grãos, as elites locais passaram a beber o vinho, enquanto a população em geral continuou bebendo a cerveja e outras bebidas locais (STANDAGE, 2005, p. 46-58). A representação do vinho como a bebida predileta da nobreza europeia se consolida ao longo da Idade Média e Moderna, unida ao simbolismo que essa bebida adquire na liturgia cristã, como o “sangue de Cristo”.

Com relação à Corte portuguesa em particular, a historiadora Leila Mezan Algranti nos fornece uma pista sobre o lugar que o vinho ocupava na mesa do Rei. A autora analisa um decreto real de 11 de maio de 1765, que regulamentava o funcionamento da Ucharia (a despensa) e da Cozinha da Casa Real. O decreto estabelecia uma série de normas tais como: quem seria o responsável pela administração desses dois setores, o número de empregados que ali trabalhariam, suas respectivas funções e ordenados, quais os tipos de alimentos que deveriam ser comprados e sua quantidade, a forma de cozinhá-los, o número e o material das baixelas que deveriam ir à mesa e, sobretudo, o tipo e a quantidade da ração que deveria ser servida para cada categoria de pessoas. Como explica a autora: "o serviço deveria ser feito seguindo-se rigorosamente a distribuição hierárquica dos alimentos. Ou seja, quanto mais alto o posto ocupado e a importância das tarefas prestadas, maior a quantidade de comida oferecida, a qual se expressava em termos de número de iguarias ou de pratos. (ALGRANTI, 2010, p. 94)

As sociedades de Corte se caracterizavam por serem sociedades extremamente hierarquizadas. Essa hierarquia não se manifestava apenas na distinção entre nobres e plebeus. Mas a própria nobreza era hierarquizada por meio dos seus títulos. Por exemplo: um duque tinha uma posição social mais alta do que um marquês; este último ocupava uma posição mais alto do que um conde; e este, por sua vez, uma posição social mais alta do que um barão. E uma posição social mais alta significava um acesso determinados privilégios do qual os indivíduos de posições sociais inferiores não compartilhavam. Essa hierarquia era organizada em termos de maior ou menor proximidade com relação ao Rei, que era o centro de todo sistema, uma vez que cabia a ele distribuir os títulos de nobreza. O lugar social na Corte de cada um desses indivíduos era estritamente regulamentado por uma série de normas de procedência e protocolos de todo gênero e, sobretudo, por um código de etiqueta que cada indivíduo deveria interiorizar. Obedecer a essas normas era garantir o seu lugar social na Corte.

O comportamento à mesa ocupava um lugar especial entre essas normas de etiqueta. Não apenas a forma de comportar-se à mesa era objeto de regulamento, mas também a distribuição dos alimentos obedecia a uma hierarquização dos indivíduos. A maior ou menor quantidade de iguarias servidas a cada “mesa”, distinguia os indivíduos. Conforme explica Leila Algranti: “Uma mesa era composta por um conjunto de iguarias e uma quantidade de pratos previstos pelos regulamentos para a posição social que aquele grupo de pessoas ocupava na Corte” (ALGRANTI, 2010, p. 88). Partilhar de uma mesma “mesa” não significava, necessariamente, estar colocado fisicamente na mesma mesa. Mas sim partilhar de uma mesma posição social e, portanto, de um mesmo tipo de refeição. Dessa forma, a organização das refeições, com a definição do que cada um podia ou não podia comer, servia como confirmação da hierarquia social que moldava a Sociedade de Corte.

Dessa forma, na Corte portuguesa do avô de D. João, o Decreto de 11 de maio de 1765 e a Tabela do que havia na ucharia real, estudados por Algranti, determinavam que o vinho fosse oferecido apenas para os segmentos sociais mais privilegiados. Confirmando que essa era a bebida por excelência das classes mais altas. Com tamanho grau de normatização seria esperado que a cerveja aparecesse nesses documentos caso fosse consumida regularmente por membros da Família Real, ou por funcionários da Casa Real. O que não acontece. A cerveja não é citada em momento nenhum. O que não impede, por outro lado, que D. João VI tenha inserido o consumo de cerveja no seu regime alimentar, ainda em Portugal ou já no Brasil. Porém, infelizmente, até o momento, não foram encontrados documentos que indiquem isso.

Dessa forma, os autores que afirmam que a cerveja voltou a chegar ao Brasil, no começo do século XIX, “trazida pela Família Real”, estão parcialmente certos. Sem dúvida, a principal medida econômica tomada por D. João durante a sua estadia no Rio de Janeiro, o decreto de abertura dos portos assinado por ele em Janeiro de 1808, foi condição sine qua non para a entrada de cerveja no comércio da América portuguesa. Porém, não necessariamente porque D. João (ou algum outro membro da Família Real) fosse um amante da bebida. No próximo capítulo vamos olhar em detalhes que cerveja era consumida no Rio de Janeiro à época do reinado de D. João.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

A cerveja trapista na Itália: Abadia de Tre Fontane

 Salve nobres,


Periodicamente vamos publicar aqui alguns artigos traduzidos do maior site italiano dedicado à cerveja artesanal, o Giornale della Birra. Principalmente as matérias sobre a história das cervejarias, escritas por Antonio Mennella. A escolhida para ser a primeira é a história da Abadia de Tre Fontane, localizada em Roma. O único monastério Trapista da Itália a produzir cerveja. Nesse link, você pode encontrar o texto original de Mennella. Vamos a ele!


É o único complexo religioso da capital do país que pode se orgulhar do título de abadia e contar com três igrejas: a de São Paulo das Três Fontes, a de Santa Maria Scala Coeli e a igreja abacial de Santo Anastácio e São Vicenzo.
Além disso, é membro efetivo da Associação Internacional Trapista desde 2014. Em Maio de 2015 obteve a marca de Authentic Trappist Product para os próprios produtos, se tornando assim a décima primeira cervejaria trapista do mundo, e a única na Itália. Portanto, vale a pena gastar com ela algumas palavras a mais, a começar do seu nascimento.
No campo romano (atual zona da EUR), sobre o traçado da antiga Via Laurentina, em um pequeno vale, entre oliveiras e eucaliptos, existe um lugar chamado as "Acque Salve”, em latim ad Aquas Salvias, nome que se deve, segundo alguns, à família Salvia, que possuía ali uma propriedade em épocas tardo-latinas; e, segundo outros, à presença das abundantes e saudáveis nascentes ainda ativas.
Junto às Acque Salve, em 29 de Junho de 67 d.C., teria sido decapitado, por ordem de Nero, o apóstolo Paulo. A cabeça do apóstolo teria batido três vezes no chão, de onde teriam nascido três fontes de água. Assim, o edifício sacro erguido no lugar em memória de São Paulo ganhou a denominação de Igreja de São Paulo das Três Fontes.
Na segunda metade do século VI, o general bizantino Narsete, governador da Itália em nome do Imperador Justiniano, fez construir um monastério anexo à pequena igreja dedicada a São Paulo, que ganhou o nome ad Aquas Salvias. E, na primeira metade do século seguinte, após a invasão da Cilicia pelos árabes, chegaram a Roma monges gregos que constituíram o primeiro assentamento.
Talvez, pela presença mesma dos monges gregos, o Imperador Eraclio, enviou para guarda no monastério das Acque Salvie as relíquias de Santo Anastácio, monge persa martirizado à mando de Cosroe em 624. Pertence a esta época também a fundação da igreja dedicada à Mãe de Deus, que se tornará Santa Maria Scala Coeli depois da visão de Bernardo de Clairvaux das almas do purgatório que subiam ao céu conduzidas por anjos.
No fim do século XI, os cluniacenses estavam se tornando a mais poderosa ordem monástica do tempo, e o Papa sentia a necessidade de aliados do gênero na luta contra o Imperador. Assim, em torno de 1080, com a desculpa de que estava decadente, Gregório VII confiou a eles a abadia e seus bens.
Mas, em 1140, Inocêncio II, removidos os últimos cluniacenses sobreviventes da malária, restaurou o grupo de edifícios que estavam reduzidos ao estado de abandono e o atribuiu à congregação cisterciense, por gratidão a Bernardo de Clairvaux, que durante o cisma de Anacleto II (defendido pelos cluniacenses), havia obtido para ele o reconhecimento imperial. Remonta a este período a construção da igreja dedicada a Santo Anastácio. Que, em 1370, por ocasião da chegada de Portugal de algumas relíquias do espanhol Vincenzo di Saragoza, ganhará o nome de ambos os santos. De fato, já em um documento de 1161 são mencionadas todas as três igrejas do monastério. Que, com sua conclusão em 1306, assumirá a estrutura que chegou até os nossos dias.
Com a ocupação napoleônica do Estado Pontifício e a supressão das fundações religiosas, os monges cistercienses abandonaram Tre Fontane em 1808 e, mudando-se para longe, não voltaram nem mesmo depois da restauração. Assim, quando Leone XII em visita à abadia, em 1826, a encontrou em um assustador estado de abandono, com uma bula impôs aos cistercienses que confiassem Tre Fontane aos franciscanos menores de São Sebastião, com a obrigação de retomar o culto e reconstruir uma comunidade. Infelizmente, frente a um tal estado de abandono dos edifícios e ao clima ruim do lugar, os frades franciscanos se limitaram a reabrir o complexo abacial apenas parcialmente, o fechando durante a noite.
Em 1855, Pio IX, junto com o Procurador Geral dos trapistas, Francesco Regis, que estava de visita a Roma, tentou lançar um projeto de restauração para Tre Fontane, mas o custo previsto impediu sua implementação. Que se tornou possível em 1867, por ocasião do jubileu extraordinário pelo 18º centenário do martírio de São Pedro e São Paulo e, sobretudo, devido a uma considerável doação da parte do conde francês De Moumilly.
Com a bula de 21 de abril de 1868 foi reestabelecida uma comunidade residente (que devia ter pelo menos 14 componentes) e a abadia é confiada aos trapistas para que providenciassem o restauro dos edifícios e o melhoramento do terreno, altamente favorável à malária.
Os monges empreenderam radicais obras de restauro do complexo monástico. E, sobretudo, operaram uma melhoria integral da zona com a construção de sistemas de drenagem das águas estagnadas. Um verdadeiro perigo mesmo para os fundamentos das estruturas dos edifícios.
A luta contra a malária encontrou um aliado valioso no eucalipto, em particular depois da liquidação da propriedade eclesiástica, quando os trapistas obtiveram em enfiteuse perpétua 450 hectares do território das Acque Salvie, com a condição de cultivar, para o seu beneficiamento, 125 mil plantas de Eucalyptus. Os trabalhos de beneficiamento continuaram até os primeiros anos dos Novecentos, até que a cobertura de uma lagoa perto do mosteiro e o uso de mosquiteiros e quinino resolveu o problema da malária.
E por isso, o eucalipto é um dos símbolos da abadia das Tre Fontane. E não apenas. O eucalipto (ou Eucalitto) é uma planta do gênero das Mirtacee (Eucalyptus) com 600 espécies da Austrália e da Tasmânia. A classificação das espécies é feita, geralmente, com base no aspecto da casca: o Eucalyptus globulus e o Eucalyptus camaldulensis, comuns na Itália, têm a casca lisa e brilhante. As folhas contêm óleos essenciais constituídos, principalmente, por compostos terpenoides e usados como antissépticos, perfumes e flutuantes [sic]. Os trapistas das Tre Fontane conseguiram desenvolver um grande conhecimento de todas as 600 espécies de eucaliptos existentes.
Desde 1873, a abadia realiza uma vasta série de produtos. Em particular os licores, que utilizam amplamente o eucalipto. No passado, o Eucalittino era um dos aperitivos mais difundidos em Roma. Ainda hoje é produzido, sempre com a receita original de 1873, por meio da infusão a frio das folhas do Eucalyptus globulus, o Estrato de Eucalipto, um licor forte sem açúcar, balsâmico e revigorante.

Há quatro anos foi encontrada, nos subterrâneos do monastério, uma receita dos trapistas franceses que vieram dar uma mão no beneficiamento do território da malária. Teve início, assim, o projeto da cerveja, com produção feita em uma cervejaria vizinha à comunidade. Obviamente, sendo produzida fora da comunidade, a cerveja ganhou a denominação de Cerveja dos Monges.
Por fim, a abadia se dotou de uma instalação interna de produção, aproveitando a antiga adega, antes utilizada para a produção do vinho (agora deslocada para outra ala da abadia); promoveu uma cuidadosa reformulação do rótulo, sendo membro da Associação Internacional Trapista, fez a requisição para obter a marca Authentic Trappist Product que, ao fim do procedimento de validação, lhe foi atribuída em maio de 2015, como já foi dito.
Obviamente que a cerveja que hoje se chama Tre Fontane é a Cerveja dos Monges criada pela comunidade dos trapistas de Tre Fontane que, porém, foi aperfeiçoada aproveitando a consultoria e a vasta experiência da Associação Internacional Trapista e obtendo, talvez, a levedura de uma outra cervejaria trapista (uma das não raras gentilezas existentes no âmbito desta comunidade).
A produção, por outro lado, é intencionalmente, reduzida a mil hectolitros anuais, o suficiente para o sustento da comunidade, para obras de caridade e para preservar o patrimônio histórico e cultural do complexo abacial.
A Tre Fontane pode ser adquirida junto à loja monástica, onde os produtos trapistas são vendidos diretamente, e em alguns restaurantes da capital. Por fim, a abadia não se limita a aproveitar a própria cerveja para fazer conservas, mas também criou um copo exclusivo para a sua degustação.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

História da cerveja no Brasil - parte 1 - Os holandeses no Recife

Salve nobres! 

Entre os autores que se ocupam com a história da cerveja no Brasil, parece ser ponto pacífico que a população da América portuguesa entrou em contato com a cerveja pela primeira vez com a ocupação holandesa do Nordeste, entre 1630 e 1654. Com a submissão do trono português à Coroa Espanhola, em 1580, no Período que ficou conhecido como União Ibérica, Portugal foi forçado a assumir como seus os inimigos do Império Espanhol. Entre eles, os holandeses. Poucos anos antes, em 1568, os territórios que viriam a se tornar a República das Províncias Unidas dos Países Baixos tinham se revoltado contra a dominação da Casa de Habsburgo, que reinava na Espanha. Como esta última se recusava a reconhecer a independência do novo país, Países Baixos e Espanha travaram uma guerra que durou 80 anos (até a paz em 1648). Os holandeses eram um importante aliado comercial de Portugal, dominando a comercialização e o refino do açúcar brasileiro na Europa. Obrigados a abrir mão desse lucrativo comércio devido ao seu estado de guerra contra a Espanha, decidiram invadir ao mesmo tempo, as zonas de produção açucareira no Brasil e de suprimento de escravos na África (atividades complementares e indissociáveis). Para tanto, em 1621 foi formada a Companhia das Índias Ocidentais, a partir de capitais estatais e privados, que atacou o Olinda (então capital da capitania de Pernambuco) com 65 embarcações e 7280 homens em 1830.


Segundo o historiador R.W. Unger, citado por Tatiana Rotolo e Eduardo Marcusso, os holandeses se  orgulhavam de ser um país de bebedores de cerveja. Com um consumo per capita de aproximadamente quatro litros diários no século XVII. Apesar de não ser lembrada hoje por sua tradição cervejeira, o fabrico de cerveja era uma atividade corrente desde a baixa Idade Média no território holandês: “A indústria cervejeira holandesa entre os séculos XIV, XV, XVI e XVII se constituía numa importante atividade econômica, sendo capaz até mesmo de patrocinar parte do chamado ‘Século de Ouro na Holanda’.” (ROTOLO; MARCUSSO, 2019, p. 88-89)

Segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo em seu clássico História da Alimentação no Brasil (publicado em 1968), os holandeses, grandes apreciadores da bebida, teriam sido, então, os responsáveis pela introdução da cerveja nos hábitos alimentares dos colonos da América Portuguesa. Ao menos, nos territórios dominados por eles. Cascudo, cita publicação de autoria Frei Manoel Calado, de 1648, onde o autor narra um banquete fúnebre: “pratos cheios de carne cozida, e assada, e peixes descabeche [sic], outros com pedaços de queijo, outro com manteiga, e muito partido em fatias, e muitos frascos de vinho de Espanha e França, cerveja, e aguardente, aonde cada um ia tomar sua refeição”. (CASCUDO, 2011,p. 783)

A cervejaria foi instalada naquela que seria a residência de descanso do governador Mauricio de Nassau (governador-geral das possessões holandesas entre 1637 e 1644), denominada “La Fontaine” e localizada na zona norte de Recife, em uma região da cidade conhecida como Capunga, redondezas do bairro das Graças. A residência foi alugada pelo prazo de quatro anos por 1.500 florins (ROTOLO; MARCUSSO, 2019, p. 84). Segundo o historiador e diplomata Evaldo Cabral de Mello: “Nassau provavelmente deixou de usá-la após a construção do parque de Vrijburg, de que desde outubro de 1840 ela passou a ser utilizada por uma fábrica de cerveja” (ROTOLO; MARCUSSO, 2019, p. 84).

A cervejaria, cujo nome pressupõe-se que fosse o mesmo da residência que ocupava (sobre o que ainda não há nenhuma evidência documental), era comandada pelo mestre-cervejeiro Dirck Dicx. Dicx era natural da cidade de Haarlen e filho de um prefeito do mesmo nome que também era proprietário de uma cervejaria denominada Het Scheepje. Foi cervejeiro da Halve Maen, também em Haarlen, e serviu na milícia local de 1626 até vir para o Brasil, por volta de 1640. Segundo Tatiana Rotolo e Eduardo Marcusse, documentos do Noord-Hollands Archief indicam que, naquele ano, ele autorizou a venda de sua casa em Haarlen e partiu para o Brasil (ROTOLO; MARCUSSO, 2019, p. 87). É na condição de porta bandeira da brigada azul da milícia de St. George que ele é retratado em dois quadros do pintor holandês Frans Hals (1582-1666): The Banquet of the Officers of the St. George Militia Company in 1627 e The Officers of the St. George Militia Company in 1639.


Apesar da afirmação de Evaldo Cabral de Mello (citada acima), segundo Carlos Alberto Tavares Coutinho, a cervejaria teria começado a produzir apenas em abril de 1641: “fabricando uma cerveja encorpada tipo swaar fermentada com cevada e açúcar”. Segundo Tatiana Rotolo e Eduardo Marcusso supõem que, dadas as dificuldades enfrentadas para o abastecimento da colônia, a vasta produção de açúcar da região, a experiência do mestre-cervejeiro Dirck Dicx e a tradição das cervejas na Holanda do século XVII, “talvez a primeira cerveja brasileira tenha contido uma quantidade de malte de trigo e algum açúcar para facilitar a fermentação” (ROTOLO; MARCUSSO, 2019, p. 90). Afirma Coutinho que existe documentação desta fábrica até o ano de 1654, que é o ano de expulsão definitiva dos holandeses de Recife. Mas não cita onde estaria essa documentação. Tatiana Rotolo e Eduardo Marcusso, por outro lado, acreditam que a cervejaria teria funcionado apenas durante os quatro anos de vigência do contrato de aluguel da La Fontaine.

Afirma Garret Oliver que a Companhia da Índias Ocidentais fez a mesma coisa nos territórios por ela administrados na América do Norte. A colonização da Nova Amsterdã começou em 1624 com o estabelecimento de trinta famílias neerlandesas na atual ilha de Manhattan. Segundo Oliver, o diretor-geral da colônia teria fundado a primeira cerveja comercial da América em 1632 (ou seja, nove anos antes da cervejaria do Recife entrar em operação). Em meados da década de 1630, Nova Amsterdã já teria uma Brouwer Street, ou “Rua dos Cervejeiros”: “A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais fabricava cerveja, os proprietários de terras fabricavam cerveja, os taverneiros fabricavam cerveja, e muitos colonos fabricavam cerveja em seus próprios lares”. (OLIVER, 2012, p. 60). A colônia ficou sob controle neerlandês até 1664, quando foi capturada pelos britânicos e rebatizada de Nova York.

Porém, ao contrário dos portugueses, os britânicos também eram fãs de cerveja, e se preocuparam em manter a produção iniciada pelos holandeses. Enquanto que na América portuguesa, após a expulsão dos holandeses, a cerveja também deixa de ser produzida. A importação de vinho português e o alvará de proibição das manufaturas, de 1785 (até a sua revogação por D. João em 1 e abril de 1808), teriam sido obstáculos tanto para a produção quanto para o consumo de cervejas no Brasil. Por isso, a cerveja só teria voltado a desembarcar em portos brasileiros junto com a Família Real Portuguesa.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS:

COUTINHO, Carlos Alberto Tavares. “Cerveja marca barbante” ou a história da cerveja no Brasil. Disponível em: http://cervisiafilia.blogspot.com.br/

OLIVER, Garret. A mesa do mestre-cervejeiro: descobrindo os prazeres das cervejas e das comidas verdadeiras. São Paulo: Editora Senac, 2012.

  ROTOLO, Tatiana; MARCUSSO, Eduardo. A cerveja no Brasil holandês: notas sobre a instalação da primeira cervejaria do Brasil. Contextos da alimentação: Revista de comportamento, cultura e sociedade. São Paulo: Centro Universitário Senac.Vol. 6, nº 1, Julho 2019, p. 73-93.