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terça-feira, 17 de novembro de 2020

A cerveja na passagem da Idade Média para a Idade Moderna

Salve nobres,
Tradicionalmente, a História Ocidental está dividida em quatro grandes Eras ou Idades: a Antiguidade, a Idade Média, a Idade Moderna e a Idade ou Era Contemporânea. A definição dos marcos de transição de uma Era para a seguinte é sempre, em alguma medida, arbitrária. Dependendo fundamentalmente da ótica do historiador. A transição da Antiguidade para a Idade Média, por exemplo, é tradicionalmente assinalada pela queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C. Historiadores especialistas em história romana, porém, discordam dessa datação. O mesmo ocorre com relação à definição dos marcos da transição da Idade Média para a Idade Moderna. 


Do ponto de vista da História Política e Econômica, o início da Idade Moderna é tradicionalmente demarcado pela queda Constantinopla na mão dos turcos otomanos, no século XV (1453). Marcando o fim do Império Romano do Oriente. Outro marco de início da Idade Moderna do ponto de vista político e econômico são as Grandes Navegações e a montagem dos impérios ultramarinos pelas potências ibéricas (Portugal e Espanha), também no século XV. Marco que está diretamente ligado ao anterior uma vez que Constantinopla servia como uma ponte para as rotas comerciais que ligavam a Europa e a Ásia por terra. E também era o principal porto nas rotas que iam e vinham entre o Mar Negro e o Mar Mediterrâneo. Dessa forma, sob o domínio muçulmano as rotas comerciais terrestres e marítimas entre Europa e Ásia foram fechadas para os mercadores cristãos. E o preço dos produtos vindos das especiarias vindas do Sudeste Asiática atingiram preços astronômicos. A tomada de Ceuta, no Norte da África, em 1415, pelos portugueses foi o pontapé inicial na abertura de uma nova rota comercial para o Oriente. Ainda do ponto de vista político e econômico, uma perspectiva que foi muito popular em meados do século XX interpretava a Idade Moderna como uma fase de transição do feudalismo para o capitalismo. Mas essa é uma interpretação que ignora aquilo que a formação política, econômica e social da Idade Moderna tem de particular (o Mercantilismo e a formação dos Estados Nacionais), caracterizando-a a partir daquilo que veio antes (o Feudalismo Medieval) ou do que veio depois (o Capitalismo Contemporâneo). 
Ainda do ponto de vista político e econômico, uma perspectiva que foi muito popular em meados do século XX interpretava a Idade Moderna como uma fase de transição do feudalismo para o capitalismo. Mas essa é uma interpretação que ignora aquilo que a formação política, econômica e social da Idade Moderna tem de particular (o Mercantilismo e a formação dos Estados Nacionais), caracterizando-a a partir daquilo que veio antes (o Feudalismo Medieval) ou do que veio depois (o Capitalismo Contemporâneo).

Estudos mais recentes vêm mostrando como essa transição é gradual e tem seu início bem mais cedo. Ninguém vai deitar “medieval” numa noite e acorda “moderno” na manhã seguinte. A História é, geralmente, feita de rupturas mas também de permanências. 

Do ponto de vista cultural e intelectual, historiadores apontam o advento do Renascimento em meados do século XIV, com a sua revalorização da Antiguidade Clássica e a consolidação do Humanismo, como marco fundamental da transição entre Idade Média e Idade Moderna. Ou ainda, a fundação e multiplicação das universidades europeias a partir do século XII. Recuando em aproximadamente 300 anos o início dessa transição.

E nós já chamamos a atenção para a importância da Peste Negra (1348) na história da cerveja, com a profissionalização do mercado de cerveja e a marginalização do papel das mulheres na fabricação de cerveja. 

Outro marco sempre lembrado pelos historiadores é a Reforma Protestante. Seu ponto de partido teriam sido os sermões do monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546) contra a venda das indulgências, ocorridos em 1516 e 1517. Em tese, na doutrina católica, a Indulgência era a possibilidade de remissão total ou parcial dos pecados por meio de boas ações. A Igreja Católica, desde o final da Idade Média, utilizava o comércio de indulgências como forma de arrecadar fundos. Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou 95 teses a respeito do valor e da eficácia das indulgências sobre a porta da igreja de Wittemberg (em 1517). Em que condenava a “avareza e o paganismo” na Igreja e pediam um debate teológico sobre o significado das indulgências. A Reforma Protestante é considerada pelos historiadores como um dos marcos de passagem para a Idade Moderna devido aos seus desdobramentos. Principalmente o rompimento da unidade de Cristandade, que caracterizou a Idade Média. 

Segundo Giovanni Messineo, no seu texto La Birra, protagonista nella storia – capitolo 4, publicado no site italiano Giornale della Birra (https://www.giornaledellabirra.it/storia-di-birra/la-birra-protagonista-nella-storia-capitolo-4/), além do debate a respeito das indulgências, o debate entre Reforma e Contra-Reforma se inflamou também em torno a outro tópico muito concreto: o emprego ou não do lúpulo na cerveja. Wittemberg, cidade onde Lutero concluiu seus estudos de teologia e se tornou professor à Universidade local, era a capital da cerveja na região da Saxônia, com cerca de 150 cervejarias no início do século XVI. Para os luteranos, o uso do lúpulo era um ato de rebelião contra a igreja católica, que à época detinha o monopólio sobre o gruit. O gruit era taxado e utilizado pela igreja como fonte de renda. Os primeiros éditos conhecidos que concederam aos mosteiros o monopólio do uso do gruit (os Gruitrechts) datam do século IX. Mosteiros, bispos e outros titulares dos direitos dessa mistura foram autorizados a conceder o usufruto também a outros produtores, mediante o pagamento de uma taxa. A compra e venda dos direitos do gruit efetivamente se transformou em uma espécie de imposto indireto sobre a cerveja, gerando uma renda significativa para a Igreja. Dessa forma, a Igreja Católica tinha o controle sobre a mistura de ervas que, durante 700 anos, constituiu um dos ingredientes amargos essenciais para se produzir cerveja “de acordo com a lei”. Por outro lado, não havia impostos a pagar ao Papa pelo lúpulo, nem mesmo em regiões controladas por católicos. Assim, junto com a publicação das teses de Lutero, a transição do gruit para o lúpulo também se tornou uma opção político-religiosa.

O uso do lúpulo era conhecido desde o século VIII. Em 768, Pepino, O Breve (Rei dos Francos entre 751-768), concede plantações de lúpulo à abadia beneditina de Saint-Denis, em Paris. 
(http://www.cervejasdomundo.com/EraMedieval.htm). Mas foi principalmente após a publicação do Livro das sutilezas das várias naturezas da criação (ou Livro das propriedades das várias criaturas da natureza, dependendo da tradução), escrito entre 1151 e 1158 pela freira beneditina Hildegard Von Bingen (1098-1179), que se popularizou a utilização do lúpulo: “O lúpulo é quente e seco, contém um pouco umidade. […] O seu sabor amargo […], quando adicionado às bebidas, evita o apodrecimento desta e dá-lhes uma vida útil mais longa”. 

Já no século XIII, o lúpulo era o principal aromatizante / conservante utilizado na cerveja na Polônia, Rússia e países bálticos, desafiando gradualmente a supremacia do gruit também na Alemanha e na Holanda. A conclusão da transição para o lúpulo, porém, demorou séculos porque por um lado havia uma tendência a querer preservar os antigos costumes e, por outro, havia o “gosto amargo” do lúpulo. A cerveja temperada com gruit era muito mais doce do que aquela lupulada. Na Holanda, o lúpulo venceu o gruit ainda no século XIV e durante o século XV a Igreja parou de cobrar o imposto sobre o gruit.

Reinheitsgebot (1516)

Na Alemanha, ou melhor, no Sacro Império Romano Germânico (962-1806), uma vez que a Alemanha ainda não existia como um Estado Nacional unificado, a transição ocorreu mais tarde, entre os séculos XV e XVI. Mas, nas regiões ocidentais ao longo do Reno o gruit permaneceu na moda por mais tempo. Em Colônia, por exemplo, o lúpulo só ultrapassou a popularidade do gruit no início do século XVI. E é justamente no começo do século XVI, mas no Ducado da Baviera, no Sul do Sacro Império, que acontece um dos fatos mais relevantes e mundialmente conhecidos da história da cerveja e que se relaciona diretamente com essa generalização do uso do lúpulo.

Em 1516, o Duque Guilherme IV (1493-1550) promulgou a Lei da Pureza da Cerveja ou Reinheitsgebot. A lei fixava preços para a comercialização da cerveja e determinava que, a partir daquele momento, os únicos ingredientes que deveriam ser utilizados para fabricação da cerveja devem ser lúpulo, malte de cevada e água (a ação da levedura na fermentação alcóolica só vai ser descoberta pela ciência em 1835). O texto integral é o seguinte:

Proclamamos com este decreto, por Autoridade de nossa Província, que no Ducado da Baviera, tanto no país como nas cidades e nos mercados, as seguintes regras se aplicam à venda da cerveja:

Do dia de São Miguel (29 de Setembro) ao dia de São Jorge (23 de abril), o preço para um mass [antiga unidade de medida austro-bávara que equivale a 1,069l] ou um kopf [recipiente em forma de tigela, utilizado para líquidos], não pode exceder o valor do pfennig de Munique.

Do dia de São Jorge (23 de Abril) ao dia de São Miguel (29 de setembro), o mass não será vendido por mais de dois pfennig do mesmo valor, e o kopf por não mais de três Heller (Heller geralmente é meio pfennig).

Se isto não for cumprido, a punição indicada abaixo será administrada.

Se qualquer cervejeiro fermentar ou tiver outra cerveja, que não a cerveja do verão, não deve vendê-la por mais de um pfennig por mass.

Além disso, nós desejamos enfatizar que no futuro em todas as cidades, nos mercados e no país, os únicos ingredientes usados para fabricação da cerveja devem ser cevada, lúpulo e água. Qualquer um que negligenciar, desrespeitar ou transgredir estas determinações, será punido pelas autoridades da corte que confiscarão tais barris de cerveja, sem falta.

Se, entretanto, um comerciante no campo, na cidade ou nos mercados comprar dois ou três barris da cerveja (que contém 60 mass) para revendê-los ao camponês comum, apenas para este será permitido acrescentar mais um Heller por kopf, do que o mencionado acima. Além disso, caso aconteça escassez e subsequente aumento do preço da cevada (considerando também que os tempos da colheita diferem, devido à localização das plantações), Nós, o Ducado da Baviera, teremos o direito de fazer apreensões para o bem de todos os interessados.

É importante deixar claro que, apesar de ser comumente conhecida como Lei de Pureza da Cerveja Alemã ou Lei Alemã de Pureza da Cerveja, a princípio essa lei se aplicava apenas ao Ducado da Baviera. Apenas em 1906 ela se estendeu a toda a Alemanha, então já unificada. Na década de 1980, por pressão da União Europeia, ela deixou de ser aplicada sobre cervejas voltadas para a exportação. Apesar disso, ela teve uma forte influência na criação da escola cervejeira alemã. E o respeito pelas suas determinações com relação ao uso de apenas três ingredientes é ainda hoje utilizado como marketing por cervejarias de dentro e de fora da Alemanha. 

Várias motivações parecem ter concorrido para a promulgação da lei. A versão mais difundida se refere a uma certa escassez da produção de trigo na região. Que, a partir de então, ficaria reservado para a produção de pão. A produção e consumo das cervejas de trigo (tradicional na região) ficaria, a partir de então, restrita à nobreza. Texto do site português Cervejas do Mundo sugere que também pode ter havido alguma pressão das guildas de cervejeiros bávaros, tentando precaver seus interesses. Segundo o site, a primeira associação de produtores de cerveja (guild), a Brauerei Beck, havia sido criada em 1498 (http://www.cervejasdomundo.com/EraMedieval.htm). Mas Interesses políticos também parecem ter influenciado no ato do Duque. Na época da promulgação da lei, o monopólio da produção das cervejas de trigo era privilégio da casa nobre de Degenberg. Ao proibir o uso do trigo, o duque Guilherme IV, que pertencia à casa de Wittelsbach (1323-1918), deu um golpe fatal na saúde financeira dos rivais. Em 1602, quando Sigismund Degenberg morreu sem deixar herdeiros, as propriedades da família foram passadas ao clã reinante e - advinhem! - as weissbiers voltaram a ser legalizadas, pelo duque Maximilian I (1597-1623), bisneto de Guilherme IV. A produção de cervejas de trigo continuou a ser um direito exclusivo da casa de Wittelbasch. Outros nobres e monastérios só poderiam produzi-las com licença concedida pelos duques. Até 1872, quando o Duque Ludwig II (1864-1886) concedeu não apenas a permissão para produção, mas também o aluguel da Weisses Brauhaus, o estabelecimento estatal dedicado à fabricação desse tipo de cervejas, em Munique, a um cervejeiro chamado Georg Schnieder. Mas esse é um assunto para outro momento uma vez que está fora do recorte cronológico enfocado por esse texto. 

O crescimento das exportações fez com que muitas cidades alemãs ficassem famosas. Entre as quais Bremen e Hamburgo. Ambas no Norte da atual Alemanha. A primeira era um importante entreposto na exportação de cerveja para a Holanda, Inglaterra e Escandinávia. Enquanto a segunda era o principal produtor da Liga Hanseática, sendo que por volta de 1500 existiam aí cerca de 600 produtoras independentes. A Liga Hanseática foi uma aliança de aproximadamente 160 cidades mercantis que estabeleceu e manteve um monopólio comercial sobre quase todo norte da Europa e Báltico entre os séculos XII e XVII. Tendo como centro a cidade de Lubeck, a rede comercial da Hansa abrangia o eixo Novgorod-Reval-Lubeck-Hamburgo-Bruges-Londres, e estava ligada às esferas comerciais de Veneza e Gênova, no Sul da Europa. Exportavam peixe seco, trigo, madeira, ferro, cobre, sal, lã e peles, trazendo tecidos, vinho, sal e especiarias. Segundo texto do site português Cervejas do Mundo, por meio dessa extensa rede comercial a Liga Hanseática chegava a exportar cerveja para locais tão longínquos como a Índia. (Fórum Cerveja do Mundo: http://www.cervejasdomundo.com/EraMedieval.htm). A Hansa entre em declínio justamente com a abertura de novas rotas comerciais entre o Oriente e o Ocidente propiciada pelas navegações de Portugal e Espanha, nos séculos XV e XVI. 

Dessa forma, talvez seja possível afirmar que, pelo menos no que diz respeito à história da cerveja, a Idade Moderna tem seu mais importante marco de transição na Alemanha entre os séculos XV e XVI. Onde o uso do lúpulo começa a superar o do gruit seja sob o impacto da Reforma Protestante, seja sob o impacto da Reinheitsgebot.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Mulheres e cerveja na Inglaterra entre os séculos XIV e XVII

Salve nobres,

Os registros públicos ingleses do período pré-Peste Negra (1348-1350) incluem uma legislação reguladora que trata a fabricação de cerveja como uma profissão exclusivamente feminina. A falta de especialização e de uma localização física necessária, podendo ser feita dentro de casa, fez da cerveja uma atividade acessível para que as mulheres adicionassem renda à casa nas cidades e nas comunidades rurais. Conhecidas como ale-wives, elas começaram a estabelecer pequenas operações comerciais e estavam autorizadas a abrir ale houses.


Fabricar e vender cervejas permitiu que as mulheres trabalhassem e obtivessem seu auto-sustento, lhes concedendo algum grau de independência com relação aos homens. Em um período histórico no qual elas eram impedidas de tomar a maior parte das decisões sobre a sua própria vida. Como explica Judith Bennett, as mulheres medievais, particularmente as solteiras, jovens e viúvas, eram quase exclusivamente impedidas de muitos métodos de auto-sustento. O trabalho da maioria das mulheres no período medieval tardio era de baixa qualificação, baixo status e baixo lucro. Comparativamente, a fabricação de cerveja era uma atividade predominantemente feminina, e em que as mulheres podiam operar de forma independente ou em conjunto com o marido. (BENNET, 1996, p. 168)

Explica a autora que, embora a fabricação e venda de cerveja fosse um comércio lucrativo e estável para todas as classes de mulheres urbanas da Idade Média, mulheres casadas e não-casadas tiveram experiências diferentes nesse comércio. A maioria das mulheres não casadas (que incluía moças solteiras, viúvas, mães solteiras, concubinas e esposas que abandonaram o marido ou por ele abandonadas) trabalhava na fabricação de cerveja apenas ocasionalmente, recorrendo a ela para se sustentar temporariamente - antes do casamento, entre casamentos, em tempos de pobreza e durante a viuvez. (BENNETT, 1996, p. 40). Mais raros foram os exemplos de cervejeiras não-casadas que continuaram o comércio mais permanentemente, como Emma Kempstere, de Brigstock, Maud London, de Oxford, e Margery de Brundall, de Norwich, que viveram e fabricaram cerveja nos séculos XIV e XV. (BENNETT, 1996, p. 40).

De acordo com os registros fiscais, registrados nas guildas medievais e nos registros de cobrança de impostos, as cervejeiras não-casadas viviam de forma mais independente e tinham um padrão de vida mais alto comparados a outras mulheres medievais não casadas (BENNETT, 1996, p. 37). Porém, ganhavam menos em comparação com uma mulher casada que operasse os negócios com o marido. (BENNETT, 1996, p. 38) As não-casadas raramente tinham os recursos para pagar aprendizes ou empregados na fabricação de cerveja e eram menos propensas a ter famílias numerosas para ajudar no trabalho de fabricação de cerveja. Esses fatores limitavam a sua lucratividade em comparação com outras cervejeiras e tornavam a sua participação na indústria uma prática menos consistente e mais ocasional. (BENNETT, 1996, p. 78)

As cervejeiras casadas ​​provavelmente tinham mais acesso a capital e servos por meio dos empreendimentos econômicos, terras ou herança de seus maridos (BENNETT, 1996, p. 38) Isso permitiu que elas ​​sustentassem, expandissem e estabilizassem seu comércio. E, como resultado de sua estabilidade e acesso a recursos, ​​"colheram lucros consideráveis ​​com o mercado de cervejas", ganhando mais do que cervejeiras não-casadas ​​e mais do que mulheres casadas em outros ofícios (BENNETT, 1996, p. 66).


Antes do século XVI, esposas e maridos dividiam as operações diárias da fabricação de cerveja de forma relativamente igual, com esposas trabalhando independentemente, em vez de subordinadas a seus maridos (BENNETT, 1996, p. 62) A divisão do trabalho entre casais cervejeiros era tipicamente dividida entre papéis públicos e gerenciais. O marido ocupava quase exclusivamente as responsabilidades públicas, incluindo as atividades de guilda e servindo como representante legal do estabelecimento. As esposas tipicamente tinham jurisdição sobre as responsabilidades da "família conjugal", que incluía a parte física da fabricação da cerveja, a administração de qualquer trabalhador e, se o comércio acabasse de uma
alehouse, a administração da própria alehouse (BENNETT, 1996, p. 67 e 72). Como evidenciado pelos registros dos pagamentos às guildas medievais, as esposas geralmente pagavam grandes impostos das alianças que eram listados independentemente de seus maridos cervejeiros (BENNETT, 1996, p. 67). Isso indica que as mulheres receberam crédito como parceiras iguais aos seus maridos em uma alta lucratividade.

Após a Peste Negra, o comércio de cerveja passou por mudanças significativas que o tornaram especializado. A sociedade medieval passou por muitas mudanças após a praga. Bennett relaciona, entre as mudanças que tiveram efeitos significativos no comércio de cerveja: a consolidação dos mercados urbanos, aumento dos padrões de vida, maior acesso ao capital, acesso mais barato aos grãos, maior demanda por cerveja como alimento básico da dieta medieval e centralização e crescente popularidade das alehouses (BENNETT, 1996, p. 43-45). Assim, ao mesmo tempo que teria ajudado no desenvolvimento do negócio dessas mulheres, o mercado cervejeiro também se tornou maduro para investimento de capitais. E “devido a essas mudanças, o mercado de cerveja se transformou de uma indústria dominada por mulheres casadas e não casadas, cervejeiras ocasionais, em um comércio profissionalizado e governado por homens”. (BENNETT, 1996, p. 168) Como explica a autora, ao contrário das mulheres, os homens tinham os recursos legais, capitais, sociais e culturais para comandar uma indústria de rápida comercialização (1996, p. 75).

Como resultado, após as mudanças do setor após a Peste Negra, as cervejeiras e alewives no final dos séculos XIV e XV enfrentaram um dos dois destinos: maior lucro ou marginalização no comércio. As mulheres que conseguiam permanecer no comércio de cerveja eram geralmente casadas, viúvas ou tinham acesso incomum a dinheiro e capital para uma artesã. Seu casamento garantia o acesso aos recursos e investimentos necessários para se manter no mercado. Explica Bennett que com a saída da maioria das mulheres não casadas do comércio de cerveja, a produção independente de todas as mulheres tornou-se menos aceita (BENNETT, 1996, p. 74). Portanto, as cervejeiras casadas após o século XIV tornaram-se menos independentes de seus maridos.

As demais mulheres envolvidas no comércio de cerveja, principalmente cervejeiras ocasionais ou em período parcial, perderam a facilidade de entrada no mercado e a estabilidade econômica que anteriormente tinham como cervejeiras. Essas mulheres encontraram outros negócios ou métodos de auto-sustento (casamento, prostituição etc.) ou permaneceram no comércio de cerveja empregadas por cervejeiros do sexo masculino (BENNETT, 1996, p. 50). No século XVI, as guildas também centralizaram e regulamentaram a fabricação de cerveja mais fortemente, o que também contribuiu para o declínio das mulheres no comércio de cerveja. (BENNETT, 1996, p. 136)


Percepções sociais

Interessante post de Lorenzo Donati, publicado no site italiano Giornale della Birra em 6 de janeiro de 2020, chama a atenção para a aproximação que o imaginário ainda marcadamente medieval da sociedade britânica do século XIV fazia entre as ale wives e as, assim chamadas, bruxas. Mulheres que traficavam com ervas e caldeirões e que conheciam receitas por meio das quais produziam, quase que por magia (note-se que, naquela época, nada se conhecia sobre os processos de fermentação), uma bebida que entorpecia os homens, deixando-os vulneráveis. Algumas comerciantes de cerveja, além disso, andavam com chapéus pontudos para serem reconhecidas, e outras prendiam uma vassoura do lado de fora da própria casa quando a cerveja estava pronta, como um sinal rudimentar, para avisar aos sedentos onde encontrar refresco. Eram símbolos que permitiam a associação entre a fabricação de cerveja à bruxaria, dando pretexto para uma verdadeira caça às bruxas. Essa caçada às bruxas-cervejeiras pode ter tido diversas motivações. Em primeiro lugar, a motivação econômica. Como explica Donati, “A cerveja feita em casa para o consumo doméstico se tornou de repente, um bem de consumo com um preço e clientes. E como sempre acontece quando há dinheiro em jogo, tem sempre alguém que procura o maior monopólio possível, em detrimento da concorrência”.


Judith Bennet aponta como as cervejeiras se tornaram o bode expiatório da comunidade cervejeira como um todo pelos vícios que o mundo medieval temia da produção de álcool. As mulheres na fabricação e venda de cerveja foram acusadas de serem desobedientes a seus maridos, sexualmente desviantes, e também de frequentemente enganarem seus clientes com cerveja diluída e preços mais altos. Seja como sexualmente promíscuas ou empregadoras de prostitutas, as alewives eram frequentemente associadas a comportamentos pecaminosos. Afirma a autora que em 1540, a cidade de Chester ordenou que nenhuma mulher entre 14 e 40 anos pudesse vender cerveja, na esperança de limitar o comércio a apenas mulheres acima ou abaixo de uma idade de conveniência sexual (BENNETT, 1996, p. 122).

Referências:
BENNETTT, Judith M. Ale, Beer and Brewsters in England: Women's Work in a Changing World, 1300–1600. New York: Oxford University Press, 1996.
DONATI, Lorenzo. Bruxas e cervejas: quando a história supera a lenda. Giornale della Birra. 2020. Disponível em: https://www.giornaledellabirra.it/storia-di-birra/streghe-e-birra-quando-la-storia-supera-la-leggenda/ Acesso em 19 de agosto de 2020.