Salve nobres,
Segundo a versão mais difundida da história, a cerveja não foi inventada e sim descoberta. Há aproximadamente 10.000 anos, na Mesopotâmia, povos até então nômades começaram a se sedentarizar e a cultivar cereais na região do Crescente Fértil (os vales dos Rios Nilo, Tigre e Eufrates). Como explica Tom Standage, ao fim da última Era do Gelo, as terras altas da região forneciam um ambiente ideal para carneiros selvagens, bodes, gados e porcos, assim como plataformas densas de trigo e cevada selvagens:
Isso significava que o Crescente Fértil oferecia certos locais específicos extraordinariamente ricos para bandos ambulantes de caçadores-coletores humanos. Eles não só caçavam animais e colhiam plantas comestíveis, mas também juntavam os cereais abundantes que cresciam de forma selvagem na região. (STANDAGE, 2005, p. 13)
Explica ainda o autor que, embora inadequados para o consumo quando estão crus, estes grãos podem se tornar comestíveis sendo esmagados ou comprimidos e despois mergulhados na água. O autor chama a atenção para duas propriedades importantes desses grãos: primeiro, o fato de que eles podiam ser armazenados durante meses ou mesmo anos até o momento do consumo. Bastando, para isso, que fossem mantidos secos e em lugar seguro. E, em segundo lugar, a descoberta de que, quando embebidos em água (coisa que devia acontecer com frequência, uma vez que devia ser difícil encontrar locais de armazenamento totalmente à prova d’água) eles começavam a brotar com gosto doce. Deixado parado por alguns dias, esses grãos umedecidos passavam por uma transformação, tornando-se ligeiramente efervescentes e agradavelmente embriagantes. Ou seja, transformavam-se em cerveja (STANDAGE, 2005, p. 14/15).
As provas arqueológicas mais antigas relacionadas à produção de cerveja vêm da mais antiga civilização conhecida: a suméria. Que se estabeleceram nos vales dos rios Tigre e Eufrates entre 4.500 e 1.900 a.C. Eles mantinham uma produção de cevada, grão-de-bico, lentilha, ervilha, milhete, trigo, nabo, tâmara, cebola, alho, alface, alho-poró e mostarda. Standage (2005, p. 22) chama a atenção para como os mesopotâmicos comer pão e beber cerveja eram considerados uma marca de civilização, uma das coisas que os distinguia dos selvagens e os tornava plenamente humanos. O autor cita passagem da Epopéia de Gilgamesh, coleção de lendas e poemas sumérios que é uma das primeiras obras conhecidas da literatura mundial. O enredo gira em torno da relação entre Gilgamesh (rei sumério que governou por volta de 2.700 a.C.) e seu equivalente selvagem Enkidu. Gilgamesh leva Enkidu a uma aldeia de pastores, na qual:
Colocaram comida na sua frente,
Colocaram cerveja na sua frente;
Enkidu não sabia comer pão,
E não lhe haviam ensinado a beber cerveja.
A jovem mulher disse a Enkidu:
“Coma os alimentos, Enkidu, pois é como se vive.
Beba a cerveja, pois é o costume da terra.”
Enkidu comeu até ficar saciado,
Bebeu a cerveja – sete copas! – e ficou expansivo
E cantou com alegria
Estava exultante e seu rosto brilhava.
Nesta época, da mesma forma como as mulheres eram responsáveis pela fabricação dos pães, elas eram também responsáveis pela distribuição da cerveja, que passou a ser uma bebida bastante consumida e valorizada pelos povos da Antiguidade. O papel das mulheres nesse processo está representado pelo Hino à deusa suméria Ninkasi:
Ela rematou-a com grandes muralhas por você. (...)
Você é a única que maneja a massa,
com uma grande pá,
Misturando em uma cova o bappir com ervas aromáticas doces,
Ninkasi, você é a única que maneja
a massa com uma grande pá,
Misturando em uma cova o bappir com tâmaras ou mel.
Você é a única que assa o bappir
no grande forno,
Coloca em ordem as pilhas de sementes descascadas,
Ninkasi, Você é a única que assa
o bappir no grande forno,
Coloca em ordem as pilhas de sementes descascadas,
Você é a única que rega o malte
jogado pelo chão. (...)
Quando você despeja a cerveja filtrada
do barril coletor,
é como os barulhos dos cursos
do Tigre e do Euphrates.
Tom Standage (2005, p. 16) explica que o bappir citado no Hino à Ninkasi, pode ser chamado também de pão de cerveja, e era feito moldando-se os brotos de cevada em torrões (pequenos bolos) que eram cozidos duas vezes para produzir um pão marrom-escuro, crocante, sem levedura, que podia ser armazenado por anos antes de ser esfarelado no barril do fermentador. Não era um ingrediente alimentício, mas uma forma conveniente de se armazenar a matéria-prima para o preparo da cerveja. Nesse ponto, o autor comenta a polêmica, muito reproduzida no meio cervejeiro, sobre o que teria sido criado primeiro: o pão ou a cerveja. Segundo ele, alguns arqueólogos argumentam que o pão teria sido um desdobramento da produção de cerveja, enquanto outros defendem que o pão veio primeiro e, apenas subsequentemente, teriam sido usado como um ingrediente na cerveja. O próprio autor aponta uma terceira hipótese: pão e cerveja seriam derivados do mesmo mingau (grãos embebidos em água), que poderia ser cozido ao sol para fazer pão ou deixado fermentar para virar cerveja. Assim, pão e cerveja seriam os dois lados de uma mesma moeda (STANDAGE, 2005, p. 16)
Standage comenta também a polêmica em torno da ideia de que a cerveja pode ter exercido um papel central na passagem da caça e coleta para a agricultura (p. 18-20). O debate a respeito da das razões que explicam a adoção da agricultura inclui dezenas de teorias distintas. E, em pelo menos algumas delas, afirma-se que a agricultura foi adotada a fim de manter a oferta de cerveja. Que se oferecia como uma fonte alternativa e segura de nutrição líquida, que compensava um declínio na qualidade da alimentação que resultou da adoção da agricultura. A esse respeito, afirma o autor:
Embora seja tentador atribuir a adoção da agricultura inteiramente à cerveja, parece mais provável que ela tenha sido apenas um entre muitos fatores que ajudaram a inclinar a balança para longe da caça e da coleta, indo na direção da agricultura e de uma vida sedentária baseada em pequenos assentamentos. Uma vez que essa transição começara, ocorria então um efeito catraca [sic], sempre avançando: quanto mais se dependia da agricultura como o modo de produzir alimentos numa determinada comunidade, e quanto mais sua população crescia, tanto mais difícil retomar o velho estilo de vida nômade baseado na caça e na coleta. (STANDAGE, 2005, p. 19)
A cerveja era considerada uma bebida divina e oferecida frequentemente aos Deuses cultuados. Sumérios, babilônios e gregos deixaram diversas provas arqueológicas que apontam tradições religiosas e produtivas relacionadas à cerveja. Ao mesmo tempo, a capacidade da cerveja de embriagar e induzir a um estado de consciência alterada fazia dela um veículo de comunicação com as realidades transcendentes (STANDAGE, 2005, p. 17). Muitas culturas possuem mitos que explicam como os deuses inventaram a cerveja.
Também na cultura da civilização egípcia antiga (entre 3.100 a.C. e 30 a.C.), a cerveja era importante e há referências a ela desde documentos da terceira dinastia (que começou em 2650 a.C.). Como explica Standage (2005, p. 23), uma análise da literatura egípcia descobriu que a cerveja (hekt) era mencionada mais vezes do que qualquer outro item alimentar. E, como na Mesopotâmia, ela também aparece em orações, mitos e lendas. Na civilização egípcia a deusa da cerveja e da fermentação era Hathor, frequentemente representada como uma vaca, porém sua forma mais comum era de uma mulher com chifres de vaca e um disco solar sobre a cabeça. Hathor era a deusa da música, da dança e da alegria. E um hino em seu louvor diz: “Tu és a Senhora do Júbilo, a Rainha da Dança, a Senhora da Música, a Rainha da Harpa, a Senhora da Dança Cora, a Rainha dos Louros, a Senhora da Embriaguez sem fim”.
As primeiras cervejas eram muito diferentes das cervejas que conhecemos hoje. Como o trigo era o melhor cereal para fabricação de pães devido à grande quantidade de glúten, ele era também o cereal mais utilizado na fabricação de cervejas. Apresentavam tonalidades mais âmbares e escuras. Além disso, era bastante habitual a adição de uvas e tâmaras ao mosto, pois percebia-se que essas frutas aceleravam o processo de fabricação da bebida (suas cascas traziam leveduras e bactérias que conduziam a fermentação). O teor alcóolico dessas cervejas era bem baixo, em torno de 2,0 ou 3,0% e frequentemente eram adicionados às cervejas diversas ervas, raízes e frutos, como alecrim, anis, canela, zimbro, gengibre, mel, avelãs e muitos outros, além de serem fermentadas espontaneamente. As cervejas eram bebidas por meio de longos canudos devido à grande quantidade de elementos em suspensão no líquido.
Desde então, a cerveja também parece ter uma importante função social. “Tanto os mesopotâmicos como os egípcios encaravam a cerveja como uma bebida antiga e divina que dava base à sua existência, formava parte de sua identidade cultural e religiosa, e tinha grande importância social”. (STANDAGE, 2005, p. 24). Com várias pessoas bebendo o líquido do mesmo recipiente. Partilhar uma bebida com alguém se torna, dessa forma, um símbolo universal de hospitalidade e amizade. Sinaliza que se pode confiar na pessoa que oferece a bebida, pois demonstra que não está envenenada ou inadequada para o consumo (STANDAGE, 2005, p. 17). O autor chama a atenção para expressões como “fazer uma festa da cerveja” e “sentar na festa da cerveja” que, no Egito, significavam “festejar” ou “aproveitar um bom momento”. Enquanto na suméria, a expressão “derramamento de cerveja” referia-se a uma festa ou banquete de celebração.






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